KC-30: conversão para reabastecedor segue indefinida e expõe lacuna estratégica na FAB

KC-30 segue sem conversão para reabastecedor e levanta dúvidas sobre o futuro do programa KC-X3. Entenda por que o projeto está paralisado e como o KC-390 Millennium, mesmo avançando, ainda não consegue suprir completamente essa lacuna estratégica.


Aeronave KC-30 da Força Aérea Brasileira em 2023. Foto: FAB - Divulgação 

A Força Aérea dos Estados Unidos (USAF) solicitou ao Congresso norte-americano US$ 3,9 bilhões para a aquisição de 15 aeronaves Boeing KC-46A Pegasus no ano fiscal de 2027. Uma conta simples, ainda que não exata, indica um custo unitário aproximado de US$ 260 milhões por aeronave.

Essa cifra ganha ainda mais relevância quando comparada ao que o Brasil planejava no Programa KC-X3. Segundo o Tenente-Brigadeiro Baptista Junior, ex-comandante da Força Aérea Brasileira (FAB), cada uma das duas aeronaves MRTT (Multi-Role Tanker Transport) previstas no programa custaria cerca de US$ 150 milhões, praticamente metade do valor dos KC-46 norte-americanos.

Cerimônia de recebimento KC-30. Foto: Sgt Figueira. Divulgação - FAB

Mesmo se tratando de aeronaves usadas (fabricadas em 2015 e com baixo tempo de voo, após mais de dois anos estocadas), o negócio era considerado altamente vantajoso. Além disso, o MRTT oferece maior capacidade de transporte de combustível, carregando aproximadamente 15 toneladas a mais que o KC-46. “Não é um projeto vencedor à toa”, resumiu o ex-comandante.

De acordo com informações oficiais da FAB, o KC-X3 foi concebido para preencher uma lacuna operacional no transporte estratégico que já perdurava havia nove anos. Em abril de 2022, a Força Aérea assinou contrato para a aquisição de duas aeronaves Airbus A330-200 da empresa Azul, com previsão de entrega da primeira em até 90 dias e da segunda em até 150 dias após a assinatura. As aeronaves foram adquiridas já com compatibilidade para futura conversão à versão militar MRTT.

Airbus A330-200 da empresa Azul. Foto: Força Aérea Brasileira. Divulgação

No entanto, as conversões para configuração de reabastecimento em voo nunca foram realizadas. Os dois A330-200, designados KC-30 pela FAB, permanecem sem a transformação completa em aeronaves tanque. O projeto de adaptação encontra-se paralisado, sem prazo definido e sem menções oficiais recentes sobre sua retomada.

Enquanto isso, essas aeronaves vêm sendo utilizadas, na prática, como transporte presidencial em missões de longa distância. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva já utilizou o KC-30 em diversas ocasiões, substituindo o VC-1 (Airbus A319) em rotas que exigem maior autonomia. Exemplos recentes incluem viagens ao Vietnã, ao Japão (com uso do KC-30 no trecho principal após escala nos Estados Unidos) e à Índia, com um voo direto de quase 19 horas entre Nova Délhi e Brasília (o voo mais longo da história na Aviação de Transporte da FAB) em apoio ao Escalão Avançado (ESCAV) da Presidência da República (PR). A aeronave também foi empregada em missões como a repatriação de brasileiros no Líbano, além de outras operações de grande visibilidade.

EXCON Escudo-Tínia 2022, KC-30. Foto: Sgt Müller Marin. Divulgação - FAB 

Esse cenário expõe um paradoxo na modernização da FAB, aeronaves adquiridas com o objetivo estratégico de ampliar a capacidade de reabastecimento em voo acabam sendo empregadas prioritariamente em transporte VIP, ao passo que, o país segue dependente de soluções provisórias para projeção de poder aéreo.

No momento em que, o programa KC-X3 permanece estagnado quanto a sua função principal, a FAB avança com o KC-390 Millennium no papel multimissão. Recentemente, a aeronave concluiu com sucesso, em cooperação com a Saab, a campanha de testes de certificação para reabastecimento em voo do caça F-39E Gripen. Os voos de validação confirmaram que o KC-390 está apto a cumprir essa função em determinados cenários operacionais.

Dois F-39E Gripen sendo reabastecidos pelo KC-390 Millennium. Foto: Embraer. Divulgação 

Ainda assim, é importante destacar que o KC-390 possui capacidade inferior para atuar como aeronave tanque principal quando comparado ao KC-30 (A330 MRTT). Embora versátil e de fabricação nacional, o KC-390 não oferece o mesmo volume de combustível transportado, autonomia e a sua capacidade de reabastecimento simultâneo de múltiplas aeronaves é menor. Trata-se de uma plataforma altamente eficiente no nível tático e logístico, mas que não substitui plenamente a lacuna estratégica deixada pela ausência de um MRTT.

Cerimônia de recebimento do KC-30. Foto: Sgt Müller Marin. Divulgação - FAB

O KC-X3 representava uma oportunidade rara de aquisição de capacidade militar de alto nível a custo competitivo. A avaliação do ex-comandante da FAB reforça a importância de decisões estratégicas orientadas pelo longo prazo. O avanço do KC-390 é significativo, mas também evidencia a necessidade de retomar projetos que assegurem uma capacidade estratégica completa.

Esse cenário torna-se ainda mais crítico diante das dificuldades orçamentárias enfrentadas pela FAB nos últimos anos. A Força Aérea Brasileira necessita, por exemplo, de R$ 253 milhões anuais para a recuperação e modernização da frota de A-29 Super Tucano, mas o investimento efetivo gira em torno de R$ 125 milhões, um déficit de aproximadamente 50%. Da mesma forma, o cronograma de entrega dos 19 KC-390 Millennium foi estendido até 2034, com a previsão de recebimento em média de apenas uma aeronave por ano, refletindo a discrepância entre o orçamento planejado e os recursos efetivamente disponibilizados.

Gráfico do Programa A-29M, apresentação ao Senado Federal em 2025. Foto: Transmissão TV Senado

Nesse sentido, para que o Brasil alcance plena capacidade operacional, será necessário alinhar planejamento estratégico com financiamento consistente e contínuo, evitando que projetos como a modernização do A-29 Super Tucano e a conversão do KC-30 permaneçam apenas no campo das intenções.

Também é importante ressaltar que a capacidade de reabastecimento em voo não se trata de um investimento acessório, mas de um verdadeiro multiplicador de poder aéreo. 

SALITRE 2022, KC-30, Força Aérea Brasileira participa de exercício multinacional no Chile. Foto: SO Nery. Divulgação - FAB

Dentro desse contexto, chama atenção o fato de que a atual gestão da FAB não tem se manifestado publicamente sobre o futuro do KC-30. Não há, até o momento, indicações claras se o projeto foi definitivamente cancelado ou se permanece em compasso de espera, condicionado à liberação de recursos.

Essa falta de definição não é um caso isolado, mas sim reflexo de uma realidade recorrente nas Forças Armadas brasileiras ao longo das últimas décadas, na qual programas estratégicos frequentemente ficam sujeitos à instabilidade orçamentária e à descontinuidade administrativa. De modo que, é um cenário que compromete o planejamento de longo prazo e a consolidação de capacidades essenciais à defesa do país.

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