Defesa Antiaérea: a Escolha do EMADS-ER pelo Exército Brasileiro

Entre lacunas históricas e decisões estratégicas, o Brasil dá um passo importante na modernização de sua artilharia antiaérea com a escolha do sistema EMADS-ER.

EMADS (Enhanced Modular Air Defense Solutions). Foto/Divulgação: COTER (Instagram).

Entre os especialistas em defesa, há um consenso consolidado de que uma das principais vulnerabilidades estratégicas do Brasil está na fragilidade de sua defesa antiaérea. Longe de ser um problema recente, essa lacuna se arrasta há décadas, atravessando sucessivos governos sem que uma solução efetiva tenha sido implementada.

Atualmente, a defesa antiaérea brasileira está estruturada predominantemente em sistemas de curto alcance e baixa altitude, voltados à proteção de pontos sensíveis e à defesa aproximada. O Exército Brasileiro, por exemplo, opera os veículos blindados sobre lagartas Gepard 1A2 (Alemanha), os MANPADS (Man-Portable Air-Defense Systems) 9k338 Igla-S (Rússia), o RBS-70 e sua versão atualizada RBS-70 NG (Suécia). Embora eficazes em seus nichos, esses sistemas evidenciam uma lacuna crítica na capacidade de defesa em camadas, especialmente no que diz respeito à cobertura de média e grande altitude.

Operação Sagitta Primus III, Gepard 1A2. Foto: Cb Estevam / CCOMSEx. Divulgação: Exército Brasileiro 

Considerando esse panorama, o Exército Brasileiro iniciou, ainda em 2012, estudos próprios e instituiu o seu Projeto Estratégico Defesa Antiaérea.

Soluções frustadas

Em razão dos eventos da Copa do Mundo e Olimpíadas que aconteceriam no Brasil, o Ministério da Defesa chegou a conduzir negociações com o governo da Rússia para a possível aquisição do sistema Pantsir-S1, destinado aos três ramos das Forças Armadas. A iniciativa poderia ter representado um avanço relevante à época, mas acabou frustrada por entraves diversos, sendo encerrada sem nenhum acordo.

Por outro lado, as empresas MBDA e Avibras chegaram a apresentar uma solução conjunta para um sistema de defesa antiaérea de média altura. Com participação da indústria nacional, o conceito previa o desenvolvimento de uma versão local do míssil CAMM, então designado AV-MMA, com o aproveitamento da arquitetura logística do sistema ASTROS como plataforma de lançamento. Apesar do potencial, o projeto também não avançou.

Proposta da MBDA e Avibras para o Sistema ASTROS versão antiaérea com o míssil AV-MMA. Foto: Avibras Industria aeroespacial - Divulgação 

O conceito de uma versão antiaérea do sistema ASTROS sempre despertou grande interesse entre aqueles que acompanham o universo das Forças Armadas. No entanto, o projeto nunca saiu da fase de concepção. Um dos principais motivos foi o ciclo repetitivo de crises financeiras que a Avibras enfrentou nas últimas décadas.

A escolha do Sistema EMADS-ER

Os estudos do Exército Brasileiro prosseguiram de forma gradual e independente, refletindo tanto a complexidade do tema quanto as limitações orçamentárias e institucionais envolvidas. Com o tempo, o projeto foi atualizado e evoluiu para o Programa Estratégico do Exército Defesa Antiaérea (Prg EE DAAe).

Por volta de 2021, o Exército decidiu ser mais prático e estabeleceu requisitos mais objetivos para o seu Programa. Foram delimitados parâmetros importantes para o futuro sistema — o alcance horizontal mínimo de 40.000 metros e vertical de 15.000 metros — Como resultado, surgiram várias especulações de possíveis ofertas, entretanto, por diversos fatores, apenas os sistemas Akash (Índia), Sky Dragon 50 (China) e EMADS (consórcio europeu/via Itália) tiveram uma avaliação oficial mais aprofundada.

No âmbito dessa fase de avaliação, o general Tomás Miguel Miné Ribeiro Paiva, comandante do Exército Brasileiro, realizou uma visita oficial à Índia, onde ele e sua comitiva puderam acompanhar, in loco, demonstrações das capacidades do sistema Akash.

General Tomás Miguel M. Ribeiro Paiva em visita oficial a Índia. Foto: Indian Army - Divulgação: @adgpi

O sistema indiano é um produto 100% nacional, desenvolvido pela Defence Research and Development Organisation (DRDO) e produzido pelas estatais Bharat Dynamics Limited (BDL) e Bharat Electronics Limited (BEL). Sua versão inicial, o Akash 1S, possui alcance de até 25 km. A variante aprimorada, Akash Prime, chega a 30 km, enquanto a nova geração, o Akash NG — ainda em testes — já demonstra capacidade superior a 70 km.

Segundo os fabricantes, o sistema é capaz de engajar helicópteros, aeronaves de combate, drones, mísseis de cruzeiro e uma ampla gama de alvos aéreos. Relatos não confirmados indicam um bom desempenho do sistema nos conflitos recentes entre Índia e Paquistão.

Exército Brasileiro conhecendo o sistema Akash em visita à Índia. Foto: Indian Army - Divulgação: @adgpi

Em paralelo às avaliações conduzidas na Índia, a Força Terrestre também realizou uma visita à Itália, onde conheceu o EMADS (Enhanced Modular Air Defense Solutions), desenvolvido pela MBDA. Trata-se de um sistema escalável, capaz de operar com os mísseis CAMM e CAMM-ER (Extended Range), ambos já em serviço na Itália e no Reino Unido.

Para o Brasil, a proposta concentra-se no CAMM-ER, com alcance aproximado de 40 km. O EMADS-ER possui arquitetura modular e aberta, o que permite a integração de radares de diferentes origens e facilita sua adaptação tanto à doutrina local quanto à indústria de defesa interna. Como parâmetro, vemos o Reino Unido utilizar o radar Giraffe, da Saab, enquanto a Itália emprega o nacional Kronos, da Leonardo, além do X-TAR 3D, da Rheinmetall (Alemanha).

Enhanced Modular Air Defense Solutions. Foto: MBDA - Divulgação 

Na mesma linha de sondagens e avaliações de produtos prontos disponíveis no mercado, o Exército Brasileiro também foi à China para conhecer o sistema Sky Dragon 50 e outros equipamentos da NORINCO, embora poucas informações sobre essa agenda tenham sido divulgadas.

Diante da grave necessidade de obtenção de uma capacidade de média altura, o Estado-Maior (EME) do Exército chegou a lançar duas consultas públicas ao mercado sobre o tema. Esse movimento ocorreu em um cenário internacional diferente, agora marcado pelo surgimento de conflitos armados na Europa e Oriente Médio, além do agravamento da crise venezuelana.

Com isso em consideração, o Exército Brasileiro estabeleceu em 2025 que seria uma prioridade emergencial a recuperação e aquisição de sistemas de defesa antiaérea de baixa, média e grande altura. A Força passou a reconhecer que a sua ausência compromete a segurança nacional. Assim, seria justificável dispensar um modelo tradicional de licitação que poderia levar anos para ser concluído.

Sem a necessidade de uma licitação e agora com uma maior urgência, o Estado-Maior do Exército decidiu avançar na aquisição do EMADS-ER via Itália.

Exército Brasileiro observando o Enhanced Modular Air Defense Solutions da Itália. Foto: Desconhecido - Divulgação: @SA_Defensa

Segundo a CNN Brasil, a proposta italiana foi apresentada por meio de um acordo government-to-government (gov-to-gov), com investimentos estimados em até R$ 3,4 bilhões. O pacote incluiria o radar Kronos nas primeiras baterias, com possibilidade de futura integração com um radar nacional. Esse arranjo de compensação (offset) poderia permitir que o CTEx e Embraer Defesa & Segurança conseguissem concluir o desenvolvimento do Radar SABER M200 Multimissão.

A decisão final pelo produto da MBDA não foi uma surpresa, já que o sistema Akash — apesar da forte campanha do governo indiano — acabaria sendo preterido pela resistência deles em permitir qualquer integração com sistemas brasileiros, além de ofertarem versões consideradas tecnologicamente defasadas, sendo esses os fatores que comprometeram sua competitividade frente aos concorrentes.

Outrossim, a escolha do sistema EMADS-ER pelo Exército Brasileiro também levou em consideração um outro aspecto estratégico: a comunicabilidade com a Marinha do Brasil. Ao optar pelo míssil CAMM, o Exército assegurou a integração com o mesmo vetor já selecionado pela Marinha para equipar as novas fragatas da Classe Tamandaré. Essa decisão promove maior interoperabilidade entre as Forças, facilita o compartilhamento de logística, treinamento e reduz custos operacionais a longo prazo.

Exército Brasileiro conhecendo o sistema Akash em visita à Índia. Foto: Indian Army - Divulgação: @adgpi

Ainda em 2025, o Exército Brasileiro oficializou sua decisão ao publicar a Portaria nº 1.686, de 22 de dezembro, que aprovou as diretrizes para a obtenção da Artilharia Antiaérea e formalizou o entendimento pela futura adoção do sistema europeu.

Nesse primeiro momento, está prevista a aquisição de um único Grupo de Artilharia Antiaérea que vai ser posicionado em Jundiaí - SP. A ideia é que ele seja composto por três baterias: uma de comando e duas de mísseis, cada uma com três veículos lançadores. Para isso, serão adquiridos 48 mísseis operacionais CAMM-ER e mais 12 mísseis inertes destinados ao treinamento.

Configuração do Grupo de Artilharia Antiaérea (EMADS-ER) Exército Brasileiro. Foto: Portaria nº 1.686, de 22 de dezembro 2025 - Divulgação - Boletim do Exército 


Sem dúvidas, o EMADS-ER representa um salto significativo em relação aos meios atualmente em operação no país. Desenvolvido por uma empresa de renome internacional, com cadeia logística consolidada e adotado por países membros da OTAN, o sistema apresenta uma proposta robusta, especialmente no que se refere à transferência de tecnologia.

Ainda assim, é importante destacar que o contrato até o momento não foi assinado e que o sistema também não foi amplamente testado em ambiente real de combate. Embora esse último ponto seja relevante, não deve ser o fator determinante.

Por exemplo, o sistema sul-coreano Cheongung-II, que, até recentemente, também não havia sido empregado em combate. Segundo o The New York Times, durante ataques iranianos contra os Emirados Árabes Unidos, o sistema interceptou 29 de 30 alvos designados, uma taxa de sucesso de aproximadamente 96%.

Enhanced Modular Air Defense Solutions. Foto: MBDA - Divulgação 

Portanto, a principal preocupação que recai sobre o Exército Brasileiro e o Ministério da Defesa é evitar que o programa se limite à aquisição inicial. O Brasil possui dimensões continentais e uma ampla gama de infraestruturas estratégicas que demandam proteção. Logo, uma única Bateria/Grupo Antiaéreo é claramente insuficiente.

A escolha do EMADS-ER pode representar o início da primeira capacidade real de defesa antiaérea em camadas do Brasil, desde que o programa sobreviva às limitações orçamentárias e políticas que historicamente afetaram o setor.

Ademais, no dia 20 de maio de 2026, uma comitiva do Comando Logístico (COLOG) do Exército Brasileiro esteve na Itália para tratar do Sistema de Artilharia Antiaérea de Média Altura/Médio Alcance EMADS-ER; das Viaturas Blindadas Centauro II e prospectar a futura aquisição de Sistemas de Aeronaves Remotamente Pilotados (SARP), categoria 3 armado.


Fonte: COLOG - Exército Brasileiro & informações públicas.

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